A propósito do ‘tal’ vídeo…

Esta semana ouvi muita gente a falar sobre este vídeo:

Resumidamente este vídeo foi feito pela revista Sábado, que num estilo “vox pop” veio para a rua fazer entrevistas aos nossos estudantes universitários.

Bom… o que me urge dizer neste momento sobre este assunto… é triste mas é a realidade, são sinais dos tempos que não voltam para trás, é a ignorância premeditada no seu estado mais vincado.

Passo a explicar.

O conhecimento, seja lá o que isso for, hoje em dia representa algo diferente do que representava há muito anos atrás, há duas gerações atrás. Dantes o importante seria saber-se todos os rios de Portugal, as linhas de caminho de ferro, as capitais de distrito… coisas que no antigo regime “serviam-se” nas salas de aula juntamente com sobremesas de “reguadas” dadas por professoras cotas e gordas com ar de bruxas. Assim se disfarçava a ignorância controlada das pessoas, e assim se impunha um regime salazarista de uma forma subtil. Não se podia falar de política nos cafés, e muito menos se podia ter acesso ao que se passava lá fora…
Hoje não, as prioridades são outras. Hoje existem muito poucos génios com capacidade para ler e escrever bem, bons em história, crânios nas “matemáticas”, tudo isto e muito mais em simultâneo. A sociedade não quer isso… a sociedade que gente que seja boa no seu âmbito, e que partilhe esse conhecimento através da web, das redes sociais, nos círculos de amigos em redor de um bom fondue e de uma “chicha” com gin tónico. São sinais do tempo…

Por outro lado acho que banalizou-se o acesso ao conhecimento. Creio que os jovens são pouco estimulados nas escolas do 1º e 2º ciclo sobre temas essenciais tais como a política, a arte, a música. Existe o pudor de ensinar para não ser questionado, e o passar do ónus para os pais que ocupadíssimos com o quotidiano, descartam a evolução sócio-cultural dos seus descendentes.
Para mim o conhecimento é um livro aberto, e por mais cliché que se considere esta “frase feita”, esta é a verdade: quem quer aprender aprende, vai aprender, vais questionar.

Dito.

1 pensamento em “A propósito do ‘tal’ vídeo…

  1. Pedro diz:

    Independentemente do teu comentário, Daniel, isto é uma obra jornalística não sou duma incompetência extrema como marcadamente tendenciosa. A missão, definida à priori, era ridicularizar uma classe qualquer (neste caso estudantes), e isso consegue-se facilmente com uma amostra estatística suficientemente grande, fazendo uma seleção perversa e não representativa das respostas. Em ~2000 perguntas (valor real, neste caso) vão haver sempre pelo menos 50 respostas estúpidas (as selectivamente mostradas), sejam professores, estudantes ou astrofísicos.

    Não é por acaso que a jornalista em questão pode acabar com um processo dum dos estudantes entrevistados (http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=34082).

    Para além disso, uma das perguntas é absurda e serve de testamento à cultura geral da própria jornalista. Não existe símbolo químico para a água, porque a água não é um elemento da tabela periódica. Existe uma fórmula química, e mesmo assim, pode-se discutir que existe mais do que uma.

    Infelizmente este tipo de manipulação tem sido hábito nos media ultimamente. Repara, por exemplo, que quando são apresentados dados através daqueles gráficos em barras, raramente o tamanho das barras é proporcional ao resultado. Muitas vezes as barras são esticadas/contraídas para parecer uma diferença menor/maior entre resultados. Isto aconteceu agora num caso célebre na MSNBC numa sondagem sobre quem é o melhor candidato republicano (http://www.singledudetravel.com/2011/09/the-mainstream-media-continues-to-screw-ron-paul/).

    Relativamente ao teu comentário, concordo que, infelizmente, a multidisciplinaridade não tem utilidade prática nenhuma hoje em dia, e sendo assim é negligenciada. Como toda a nossa vida está calibrada para a carreira profissional, não é considerado importante – e como dizes, querem-se profissionais experts na sua área. As pessoas formam-se cada vez mais em profundidade e menos em abrangência. Parece-me que o modelo está feito de forma a que se prioritiza o desenvolvimento de autómatos especializados do que propriamente seres humanos.

    Dito isto, e aqui discordo contigo, tenho a sensação de que continua a haver muita gente com um conhecimento e espectro de interesses bastante abrangente, portanto não sei até que ponto será real este declínio nesse tipo de pessoas de que falas. Mas isto naturalmente tem sempre a ver com a experiência de cada um, e é difícil discernir a realidade nestes casos a menos que se façam estudos sérios.

    Em relação à falta de estímulo no sistema educativo, concordo plenamente. Isto já aconteceu comigo, no meu tempo – se eu não tivesse tido computador, tv cabo e internet, por esta ordem cronológica, teria tido uma gama de interesses muito mais limitada do que tenho hoje em dia. Lembro-me bem dos meus pais me comprarem também material educativo e se preocuparem em me acompanhar na descoberta de tudo o que eu achasse remotamente interessante. Parece-me que o papel dos pais é fundamental neste capítulo e em última análise é discutível se deve ou não passar sequer pelo sistema educativo a responsabilidade de estimular os alunos a se interessarem por domínio A ou B.

    O problema é quando nem o sistema educativo estimula nem os pais têm condições anímicas/emocionais para dispenderem a energia que a educação dum filho requer, que vai muito além de criar condições de sobrevivência, segurança e comforto.

    Abraço!

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